Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

#24

Quase um desejo, doente, ele traz o crepúsculo para perto, olhando em seus olhos, tremendo. Movendo esses sentimentos, ele não entende. Sentindo-se um espectro do que poderia ser, eternamente uma promessa. Por que temia a morte se já estava morto por dentro? Por que esse desejo masoquista, quando bastava apenas seguir a inêrcia e esperar que os dias o levassem? Sofria lentamente, mas não o bastante.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

#23

Era muito profundo, uma ferida aberta. Nada faz mais sentido. Escondido atrás das palavras, de sorrisos, de um trabalho infeliz, de sua pequena mentira, pequena vida, um ser humano minúsculo.
Sentado todos dias na mesma cadeira, a vida passando em uma velocidade alucinante, esperando a morte com medo. Em seguida o nada, vazio. Isso deveia confortá-lo, mas não, era uma sensação de pânico, tristeza profunda. Sentia-se doente, sujo, desperdiçando essa incrível coincidência que era sua vida. Tinha medo de desaparecer, de não deixar rastros, sumir no esquecimento. De que vale ser lembrado, afinal. O tempo acabaria e 10 segundos seriam 5 bilhões de anos e nada mais existiria e nada se lembraria. Ele nasceria de novo, na mesma terra, talvez 10 ou 20 blhões de anos dalí, ou 10 ou 20 segundos, tanto faz, tudo seria igual, o tempo seria o mesmo, uma grande esfera onde o universo circula, se repete e muitas outras vidas morreriam e nasceriam. Tudo de novo, tanto faz, seríamos todos os mesmos.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

#22

Quanta saudade, difícil suportar, explodindo no peito. Bastou uma imagem para ela voltar, uma breve felicidade antecipando a angústia. Ela estava linda, sempre esteve. Tão distante, tão parecida. Ele se via como um fantasma ao seu lado na fotografia. A mesa com a comida, a família ao redor, os sorrisos. Tantos anos passaram e nada passou. Sua única crença no ser humano era da capacidade de amar. E ele amava, a amava acima de tudo, acima de sua própria compreensão, de seu julgamento, juizo. Ele sentiu um sopro de vida, toda aquela falta de ordem lhe dava uma razão. Lá estava, linda, sempre, para sempre... distante. Sua crença no ser humano se baseava em sua existência. Sua razão, seus motivos estavam distantes. Ele enxergou por um segundo e tudo desapareceu.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

#21

Depois de um longo despertar, decidiu ir para a cozinha tomar café. Estava frio e ele pensava na vida, ou melhor, procurava uma razão. Preocupado se estava vivendo um cliché ele misturava açúcar na bebida escura.
Ela partiu para sempre, ele sabia, embora não parecece verdade. Seis meses atrás estava tudo bem, exceto por um pequeno desconforto abdominal. Seis meses depois ela estava morta. Irreal, ele pensava em sua própria fragilidade, em tudo que fazia com sua vida, em tudo que ela fez com a dela. Ela morreu, mas ainda assim, mesmo após ver aquele rosto de cera e ouvir as palavras decoradas do padre, ainda não parecia possível.
Viram-se pela última vez antes da doença havia dois anos e atribuiu à essa distância entre seus encontros a razão porque ainda não acreditava que ela morrera. Talvez daqui dois anos, pensou, venha a sentir sua falta. De qualquer forma eram próximos, o tipo de pessoas que não mudam, pelo menos para nós. São aqueles que sempre tiveram um papel diferente, sem a cobrança do dia-a-dia ou a estagnação da rotina, são presenças frescas em nossas vidas e assim deveria ser, sempre.
Pensava nisso enqanto lia o jornal. Um desastre de avião, mortos em um jogo de futebol, obras de metrô, cadernos culturais, não se concentrava em nada. Estava marcado com uma sensação de incomplitude, sentia-se vazio e ansioso. Tão rápido, seis meses, uma explosão, a cabine despressurizada, dez crianças, um bebê, engolidos pela água, 258 passageiros mortos em alto mar, 10 minutos atrás tudo estava bem, alguém naquele vôo poderia estar chorando a morte de algum parente sem imaginar a própria, melhor assim.

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

#20

Acordou com o coração acelerado, uma dor aguda no ombro direito, cabelos molhados de suor. Ergueu-se da cama puxando ar desesperadamente, olhos verdes saltados. Sua cabeça vagava no espaço entre sonhos e consciência, na confusão de estabelecer o que é real. Seu quarto pairava debaixo de seus olhos como um oceano, cores oscilando escuras como a maré. Teve a impressão que iria desmaiar, fechou a mão com força nas cobertas e um turbilhão de adrenalina surgiu formigando de seu estômago, percorrendo seu peito até a ponta dos dedos das mãos. Era difícil se mover, colocou uma perna para fora da cama tomando cuidado para não acordar sua companheira. Incrível como, dentro de uma situação extrema onde achava estar prestes a morrer, se preocupava em não acordá-la. Caminhou cuidadosamente até a cozinha, encheu um copo com água e voltou para o quarto. Abriu a parte superior do armário e tateou seu interior à procura dos comprimidos. Por fim o som metálico da embalagem ao chocar com seus dedos. Tirou um comprimido e repartiu em duas metades iguais, jogou uma delas na boca e engoliu com água, colocou a outra metade cuidadosamente no criado mudo e deitou-se. De costas para o colchão esperou o efeito do tranquilizante.

Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

#19

- Por que você vive? - ele perguntou

- Como assim?

- Por que? O que te faz acordar todos os dias?

- O despertador! Que pergunta é essa?

- Você nunca se perguntou por quê esta aqui? Veja, de todas pessoas que conheço, nenhuma gosta de seu trabalho, poucas estão amorosamente felizes, algumas fazem esporte, algumas colecionam tralha, outras ouvem música, mas ninguém parece ter um motivo forte, algo que valha a pena acordar todos os dias e batalhar, sei lá, um ideal, algo maior que dinheiro. Acho que poucas pessoas saberiam me responder isso. Você sabe?

- Cê tá louco! - ela exclamou. - Num sei... - mas começou a pensar sobre o assunto, porém antes que pudesse continuar.

- Acho que as pessoas vivem pelo simples acaso de estarem vivas. Esse ciclo de vida, entende? Essa roda que gira, comprar, trabalhar, beber, dormir, trabalhar... Por que isso? As pessoas vivem no mínimo oito horas de agonia num emprego de merda só para encher a cara uma vez por semana. Isso não faz sentido. Estamos todos anestesiados.

- Ah.... - não conseguiu continuar.

- O que me assusta é não saber responder essa pergunta. Deveria ser tão simples, deveria ser simples saber responder por quê fazemos tal e tal coisa. Bilhões de pessoas morrerão sem saber exatamente o que poderiam ter feito. Veja, num é possível que vivemos guiados apenas por um instinto natural de sobrevivência...

- Mas isso... - ela tentou argumentar.

- ... sabe aquele momento que nos perguntamos o que vamos fazer de nossa vida? Então, esse é o momento mais importante! As pessoas tendem pela opção mais segura, como se o mais seguro fosse escolher algo não nos agrade necessariamente. E mesmo quando escolhemos o que gostamos, sempre nos submetemos à um emprego em uma companhia, segurança, salário, décimo terceiro, essas coisas, alugamos nossa capacidade e talento para cumprir o objetivo de alguém que talvez nunca venha na sua mesa dizer um obrigado sincero. Tudo bem, foda-se isso então, aí ganhamos a grana, mas o que fazemos com ela? Pagamos nossas contas, os impostos e sobra a merreca que usamos com cerveja, maconha e coca, isso quando dá para os três. No fim é simples, a gente se arrebenta para cumprir objetivos simples, tipo acabar um projeto no trampo, ou comprar uma televisão nova, um celular, uma roupa, mas não tem nada por trás disso, é tudo vão, vazio. Se alguém tem objetivos grandes, ou é focado demais em uma coisa, dedicado demais em um objetivo que considera MAIOR - e isso ele disse fazendo um gesto com os braços - , a gente chama de louco, de obsecado. Sempre ouço gente falando de grandes grupos de pessoas em prol de alguma coisa maior, mas isso eu nunca vi, nunca senti.

- Vai pra igreja. - disse ela sorrindo.

- Essa seria uma boa coisa a se combater, valeria a pena formar uma resistência ao fanatismo religioso, à hipocrisia.

- O que você pretende fazer?

- Ir para o trabalho, estou atrasado. - ele disse rindo.

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

#18

Mais um dia em branco, mãos pesadas, pensamento lento. Seu coração é um relógio, o mesmo intervalo, a mesma pressão, olhos fixos no vazio, ele tenta pensar em qualquer coisa, construir o raciocínio mais básico, algo como “hoje fui a feira e comprei tomates, voltei pra casa, temperei e comi os tomates...”. Mas seus pensamentos eram como areia fina, facilmente carregados pelo vento. Assim que visualizava os tomates uma névoa espessa cobria tudo. Então ele dormia quase o dia todo. Sem os comprimidos seria impossível dormir, com eles era quase impossível manter-se acordado. Nunca sonhava.

No começo ele gostou da sensação, ainda podia sentir alguma prazer na anestesia. Mas agora não sentia nada, não gostava, nem desgostava. Pessoas vinham, falavam, riam e suas vozes ecoavam em sua cabeça, como se seu crânio fosse uma enorme sala de concertos. Aquelas vozes e aquele eco se misturavam, formavam uma grande massa de ruído humano, que de repente tornava-se o som do mar e de repente não era nada.

Ele comia e não sentia o sabor, apenas que sua fome passara. Ultimamente sentir fome era raro, como qualquer outra coisa.

Deixar de tomar as pílulas, segundo seu médico, traria todos problemas novamente, o rapaz precisava tratar sua disfunção química, alguma coisa no sistema nervoso central. Assim que o veredicto de cura fosse dado ele reduziria gradativamente a dose dos remédios e continuaria com terapia duas vezes por semana. Todo processo dura uns dois anos. O que restaria dele no final desse processo? O que seria ele, o que seria uma pessoa diferente? No momento em que colocou a primeira pílula e dormiu, o rapaz começou a morrer para outra pessoa, dentro desse mesmo corpo, acordar e viver.

Durante a vida morremos muitas vezes, esquecemos o que fomos, esquecemos como nascemos e o como pensávamos, tudo o que aconteceu e nos tornou o que somos agora está morto. Ele se perguntava se existe vida após a morte? Sim, existe, mas essa vida não era sua.