segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

#26

Estava sozinho, mais um dia, sabia que era sua culpa, seu problema... Isso, obviamente, tornava a dor pior. Poderia simplesmente render-se à depressão, ele queria que as coisas começassem diferentes, mas era tudo assustadoramente igual. Sua perspectiva estreitava-se e não conseguia olhar para os lados, como se uma enorme parede branca ocupasse todo campo de visão.
Estava muito apegado à própria ingenuidade. Imaginava-se em um deck, olhando ondas esmagando pedras, fazia frio. Esfregava as mãos sob as luvas de lã, sentia-se confortável. O vento cantava em seus ouvidos, ele gostava. Uma lua brilhava pequena, dando espaço para quantas constelações pudesse contar. Era lindo. Ele poderia esperar para sempre, até todas explodirem e seria um espetáculo maravilhoso. Seria perfeito.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

#25

Novamente sentiu-se vazio, incapaz, quase inexistente. Sentia uma dor oca no estômago, uma forte queimação no peito, músculos cansados, embora tivesse dormido quase 10 horas sob efeito de clonazepan. Queria tomar outro, mas um estranho senso de responsabilidade ou talvez autopreservação parecia falar mais alto, de alguma forma ele ainda achava que devia fazer alguma coisa, como se a derrota nesse ponto de sua vida significasse um passo sem volta. Por alguns instantes ele se viu na figura do homem velho e rancoroso, remoendo suas frustrações, esperando um fim doloroso e inevitável.
Olhava para o computador como se alguma vida pudesse brotar do objeto metálico, ele parecia travar uma briga interior, o caminho estendia-se em sua frente, mas essa barreira, essa força sugava para o lado oposto.
A idéia do calmante pipocava em sua mente, mas dessa vez ele tinha que vencer.
Estava exausto, a dor era física, sua cabeça, seus membros, seu abdome. Estava sozinho. Colocou os fones de ouvido, puxou um caderno, aquele seria um dia longo e doloroso, mas - talvez esse seja o preço a se pagar - pensou.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

#24

Quase um desejo, doente, ele traz o crepúsculo para perto, olhando em seus olhos, tremendo. Movendo esses sentimentos, ele não entende. Sentindo-se um espectro do que poderia ser, eternamente uma promessa. Por que temia a morte se já estava morto por dentro? Por que esse desejo masoquista, quando bastava apenas seguir a inêrcia e esperar que os dias o levassem? Sofria lentamente, mas não o bastante.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

#23

Era muito profundo, uma ferida aberta. Nada faz mais sentido. Escondido atrás das palavras, de sorrisos, de um trabalho infeliz, de sua pequena mentira, pequena vida, um ser humano minúsculo.
Sentado todos dias na mesma cadeira, a vida passando em uma velocidade alucinante, esperando a morte com medo. Em seguida o nada, vazio. Isso deveia confortá-lo, mas não, era uma sensação de pânico, tristeza profunda. Sentia-se doente, sujo, desperdiçando essa incrível coincidência que era sua vida. Tinha medo de desaparecer, de não deixar rastros, sumir no esquecimento. De que vale ser lembrado, afinal. O tempo acabaria e 10 segundos seriam 5 bilhões de anos e nada mais existiria e nada se lembraria. Ele nasceria de novo, na mesma terra, talvez 10 ou 20 blhões de anos dalí, ou 10 ou 20 segundos, tanto faz, tudo seria igual, o tempo seria o mesmo, uma grande esfera onde o universo circula, se repete e muitas outras vidas morreriam e nasceriam. Tudo de novo, tanto faz, seríamos todos os mesmos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

#22

Quanta saudade, difícil suportar, explodindo no peito. Bastou uma imagem para ela voltar, uma breve felicidade antecipando a angústia. Ela estava linda, sempre esteve. Tão distante, tão parecida. Ele se via como um fantasma ao seu lado na fotografia. A mesa com a comida, a família ao redor, os sorrisos. Tantos anos passaram e nada passou. Sua única crença no ser humano era da capacidade de amar. E ele amava, a amava acima de tudo, acima de sua própria compreensão, de seu julgamento, juizo. Ele sentiu um sopro de vida, toda aquela falta de ordem lhe dava uma razão. Lá estava, linda, sempre, para sempre... distante. Sua crença no ser humano se baseava em sua existência. Sua razão, seus motivos estavam distantes. Ele enxergou por um segundo e tudo desapareceu.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

#21

Depois de um longo despertar, decidiu ir para a cozinha tomar café. Estava frio e ele pensava na vida, ou melhor, procurava uma razão. Preocupado se estava vivendo um cliché ele misturava açúcar na bebida escura.
Ela partiu para sempre, ele sabia, embora não parecece verdade. Seis meses atrás estava tudo bem, exceto por um pequeno desconforto abdominal. Seis meses depois ela estava morta. Irreal, ele pensava em sua própria fragilidade, em tudo que fazia com sua vida, em tudo que ela fez com a dela. Ela morreu, mas ainda assim, mesmo após ver aquele rosto de cera e ouvir as palavras decoradas do padre, ainda não parecia possível.
Viram-se pela última vez antes da doença havia dois anos e atribuiu à essa distância entre seus encontros a razão porque ainda não acreditava que ela morrera. Talvez daqui dois anos, pensou, venha a sentir sua falta. De qualquer forma eram próximos, o tipo de pessoas que não mudam, pelo menos para nós. São aqueles que sempre tiveram um papel diferente, sem a cobrança do dia-a-dia ou a estagnação da rotina, são presenças frescas em nossas vidas e assim deveria ser, sempre.
Pensava nisso enqanto lia o jornal. Um desastre de avião, mortos em um jogo de futebol, obras de metrô, cadernos culturais, não se concentrava em nada. Estava marcado com uma sensação de incomplitude, sentia-se vazio e ansioso. Tão rápido, seis meses, uma explosão, a cabine despressurizada, dez crianças, um bebê, engolidos pela água, 258 passageiros mortos em alto mar, 10 minutos atrás tudo estava bem, alguém naquele vôo poderia estar chorando a morte de algum parente sem imaginar a própria, melhor assim.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

#20

Acordou com o coração acelerado, uma dor aguda no ombro direito, cabelos molhados de suor. Ergueu-se da cama puxando ar desesperadamente, olhos verdes saltados. Sua cabeça vagava no espaço entre sonhos e consciência, na confusão de estabelecer o que é real. Seu quarto pairava debaixo de seus olhos como um oceano, cores oscilando escuras como a maré. Teve a impressão que iria desmaiar, fechou a mão com força nas cobertas e um turbilhão de adrenalina surgiu formigando de seu estômago, percorrendo seu peito até a ponta dos dedos das mãos. Era difícil se mover, colocou uma perna para fora da cama tomando cuidado para não acordar sua companheira. Incrível como, dentro de uma situação extrema onde achava estar prestes a morrer, se preocupava em não acordá-la. Caminhou cuidadosamente até a cozinha, encheu um copo com água e voltou para o quarto. Abriu a parte superior do armário e tateou seu interior à procura dos comprimidos. Por fim o som metálico da embalagem ao chocar com seus dedos. Tirou um comprimido e repartiu em duas metades iguais, jogou uma delas na boca e engoliu com água, colocou a outra metade cuidadosamente no criado mudo e deitou-se. De costas para o colchão esperou o efeito do tranquilizante.