Acordou num sábado. O frio, na forma de gotículas de água, batia contra a janela violentamente, jogado pelo vento que assoviava pelas frestas. Abriu os olhos e contemplou o teto de um quarto escuro que parecia ter adquirido o aspecto monocromático azul marinho. Virou. Os fios dispersos dos cabelos dela tocaram seu rosto fazendo cócegas. Ela dormia um sono profundo e sem sonhos, a pouca luz contra seu rosto destacava uma fina penugem e dava um aspecto aveludado à pele. Cabelos lisos, negros e desarrumados sobre o rosto. A boca entreaberta em uma respiração lenta e profunda. O mundo parecia parado, ou melhor, o tempo parecia escorrer lento, sem pressa. Ele quis tocar seus cabelos, mas teve medo de desperta-la. Deus, como era linda, ela nem poderia imaginar a grandeza de sua beleza nesse momento, assim, estática, quase uma fotografia, indefesa e pura.
Alguns momentos em nossas vidas dão a sensação de fechamento, de que tudo está completo, ou que tudo se resume a uma coisa específica. Naquele momento a única coisa que o garoto pensava é que poderia morrer em paz, que se, naquele exato momento seu coração parasse, ele deitaria a cabeça no travesseiro junto a ela e morreria em paz, sua visão embaçaria lentamente e não teria medo, seria exatamente como cair no sono. Com ela ao lado, os dois poderiam passar a eternidade assim, num sono sem sonhos.
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